Sexo pago, anônimo e casual
Eles são personagens do cenário urbano e fazem parte do imaginár
io popular. Tantas são as histórias e os mitos que envolvem os garotos de programa
22.01.04
Por Mauro Arcanjo
Meu interesse em entrevistar os profissionais do sexo é legítimo. Afinal, são personagens do cenário urbano, fazem parte do imaginário popular, tantas são as histórias e os mitos que os envolvem.
Pelo que li, é fácil encontrar “michês” dispostos a dar entrevista. Adoram aparecer, gostam de falar de suas peripécias sexuais, do quanto são bons de cama. Mas é preciso ter um depoimento real, um entrevistado local. As informações que colhi para o meu artigo são pautadas em entrevistados da capital paulista. Portanto, distantes, beirando a ficção. Se eles de fato são falantes, exibicionistas, que falem e se exibam para os repórteres do ParouTudo!
Os clientes, porém, têm atitude contrária. Não se gabam como os heterossexuais quando declaram abertamente dormir com prostitutas. Gays não gostam de admitir que pagam para ter prazer. Acreditam que é emitir um atestado de incapacidade de encontrar parceiros sexuais por eles mesmos. Que me perdoem o clichê, mas toda regra tem sua exceção. Se existem os gays que não se enquadram nos padrões de beleza vigentes, há, também, aqueles clientes cheios de vigor e muito, muito interessantes.
Pasmem, mas aquele cara que tem horror a ambientes GLS, cheio de convicções e argumentos para defender seu ponto de vista, às vezes faz uso de um companheiro de aluguel. E gosta. Praticamente um fetiche. Quanto mais envolto em mistério, secreto, melhor.
Outro personagem do cotidiano dos garotos de programa é o marido infiel, diga-se de passagem, um sujeito bem prático. Para ele, o interessante das puladas de cerca com michês está na rapidez da relação, no não-envolvimento. Alguns chegam a freqüentar saunas, mas reclamam da dificuldade com que as coisas se desenrolam. Daí a preferência em ir direto ao ponto. A rapidez, neste caso, ajuda a não criar suspeitas na esposa traída.
E quais os fatores levados em consideração pelo indivíduo que procura esse tipo de serviço? Manter a orientação sexual no anonimato e a facilidade de transar com um sujeito interessante. Tem também o medo de ser reconhecido. E quem não tem?
Mas não só de temerários é formado o rol de clientes dos garotos de programa. Como dito, pesa também o interesse em pagar para não se envolver emocionalmente. São os clientes que já tiveram relacionamentos homossexuais, mas que deixaram de acreditar nesse tipo de relação. Curiosamente, os mesmos que acabam se apaixonando pelo boy. Os que fogem dos compromissos. O perfil de quem confunde sexo casual e paixão é descrito como o de uma pessoa experiente que não busca sentimentos intensos. Todavia, termina por nutri-los.
Esquecer que um michê é um personagem e que ele tem consciência disso pode acarretar em uma frustração enorme. Às vezes o boy opta por levar a idéia da relação cliente-michê adiante. No entanto, de acordo com o relato de um deles, é natural que o mesmo finja para obter alguma vantagem.
Apaixonar-se por um garoto de programa pode até ser algo corriqueiro, o que não descarta um comportamento mais cuidadoso por parte do envolvido. É normal alimentar o receio de que sair com michês significa ser roubado ou, mesmo, assassinado. O medo da violência é que faz a maioria dos interessados nesse tipo de serviço procurar saunas e casas de massagem ao invés de contratar diretamente na rua.
Esse comportamento esconde preferências nada convencionais. A maior parte dos interessados em sair com garotos de programa faz exigências invariavelmente extravagantes. Só para citar, há os que pedem para cuspir em suas caras. Outros, mais ousados, preferem apanhar, ainda que saiam com hematomas, segundo o apontamento de um dos garotos entrevistados e cujo depoimento reproduzo aqui. “Os caras já chegam pedindo para apanhar. Tem cliente que sai do quarto todo roxo. Alguns gostam de levar soco, mas já peguei um que quis apanhar de chinelo.”
Um deles, que só atende em hotéis e motéis, revelou que um cliente pedia apenas para que ele se masturbasse e, respectivamente, gozasse nos objetos do quarto. Todos os entrevistados da capital paulista afirmam que isso é normal. Na primeira oportunidade de extravasar, o fazem.